Certa vez participei de um curso na instituição cujo tema era especialização na investigação de crimes de corrupção.
Tema o qual sempre me instigou. Animei-me.
Perguntou o professor na aula inaugural, sala cheia: “quem são os policiais mais antigos?”
Levantaram a mão uns respeitáveis veteranos com mais de 20 anos de serviço.
O professor prosseguiu: “quantas investigações de crimes de corrupção vocês efetuaram durante a carreira toda?” A resposta foi um silêncio vergonhoso, seguido de uma única resposta de um deles.
Esse policial havia realizado, em cerca de mais de duas décadas, apenas 2 investigações cujos crimes se relacionavam a corrupção.
Eu disse investigação, não condenação, porque os dados estatísticos apontam um baixíssimo sucesso nesses casos, já que os investigados e réus tem poder aquisitivo (e influência política) para “desmontar” a persecução penal exercida por uma polícia despreparada e carente de recursos.
É, derrubar a portinhola de favelados é fácil, mas estourar um blindex de bacana gera corregedoria, punição, remoção, pesadelos, arritmias e por aí vai – experimenta.
A real é que a polícia civil não investiga nem uma ínfima parcela da corrupção praticada na seara pública. É uma verdadeira piada.
É comum na atividade policial receber informações, indícios, provas desses crimes, mas é como eu sempre digo “quantas malditas pernas e braços você enxerga olhando para mim”? Não tem nem policial para dirigir viatura, quanto mais para investigar essas complexas tramas criminosas.
Existe corrupção em qualquer prefeitura, é só começar a fuçar (e se incomodar). Esta aí uma verdade como o nascer do sol.
Voltando ao curso, foi-nos apresentados alguns “cases” de sucesso, com raríssima condenação de servidores públicos pela fraude em licitações.
Milhares de horas de investigação, apreensões, reviravoltas, pedidos de trancamento do inquérito policial, alegações de nulidade, deslocamento entre estados, cooperações entre polícias estaduais, receita federal e o escambau.
É o que está por trás de tudo, trabalho exaustivo para responsabilizar os piores tipos de cidadãos e servidores públicos: os bens arrumados, educados, pais de família, gente do “bem”. Por baixo dos panos vão gerando a reprodução da miséria e precariedade de serviços públicos.
Deu pra perceber, ao decorrer do curso, que dá pra desbaratinar esses pilantras, é só ter estrutura, vontade, efetivo, disposição. E também coragem, lealdade ao distintivo. Mas isso, ao que parece, só faz sentido para a base.
Quanto mais ao topo da cadeia, menor é o compromisso com a verdade e com o distintivo.
Voltei animado com o conhecimento adquirido durante 4 dias de curso. Queria começar várias investigações sobre o tema. Todavia, no dia seguinte minha mesa já estava abarrotada de ordens de missão, intimações, serviços administrativos.
Também muitas apurações, aguardando diligências, de traficantes pé de chinelo, aqueles que vendem droga para comer Burguer King no shopping.
Naquela semana precisei ir à Prefeitura para fazer algo relacionado a alguma burocracia qualquer e a piada é sempre a mesma: “Cuidado, a Polícia Civil chegou, não vai prender a gente né (risadas)?” Eu dou risada também. A Prefeitura é um circo e o policial civil é um palhaço.

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