Há vários temas de que anseio escrever sobre minha carreira: a formação policial é uma delas.
No Brasil, para se tornar policial, é necessário ser aprovado numa seleção imparcial e rigorosa – o concurso público. Faz-se uma prova objetiva, ao que se seguem etapas médicas, de capacidade física, psicológica, de verificação de documentos.
É uma verdadeira e maluca odisseia.
Superadas todas estas fases, você será convocado a se apresentar para o início de sua formação policial. Com pequenas variações entre os estados da federação, tal curso tem duração de 3 a 12 meses.
A minha durou quase 10 meses de um curso longo, inesquecível e transformador.
A academia de polícia é um divisor de águas na vida daqueles que não eram policiais e passarão a ser, porque agora você será um agente da lei representante de um ideal de justiça.
Até você pisar no prédio onde ocorrerá seu curso, ninguém tem a noção da responsabilidade que lhe será incumbida. Você juntará uma pequena mudança e a levará para uma cidade da qual nunca mais se esquecerá.
Você começa com frio na barriga e no fim o frio é uma nevasca descendo do Everest na sua direção.
A formação policial civil engloba as matérias jurídicas (direito penal, processo penal, direito constitucional, direitos humanos, direito funcional), de criminologia (delinquente, do delito, controle social e vítima) de criminalística (perícias, local de crime, entorpecentes, fraudes, laudos diversos, etc), de técnicas policiais (disparo, armamento, balística, movimentação policial, direção veicular etc), de investigação criminal (teoria da investigação dos mais variados delitos, psicologia criminal, técnicas de entrevista, etc), de capacidade física (treinamento físico contínuo e defesa pessoal direcionada à rotina policial).
Pode ser que eu esteja esquecendo de alguma coisa.
À medida em que os dias avançam, o peso do novo aprendizado vai forjando uma nova identidade. Você deixa de ser um cidadão comum e passa a ser uma espécie de herói para a população e sua família.
Você recebe autoridade pela lei e respeito pela função.
Você tem autorização estatal para usar da violência controlada.
A polícia lhe apresenta os policiais mais capacitados, mais antigos, mais experientes, para contar suas histórias, investigações e para ensinar a raciocinar diferente.
Antes, o mundo possuía suas paisagens e cores vívidas, mas agora ele será permeado pelos vários tons de cinza da criminalidade e suas relações intrínsecas, perceptíveis somente pelo olhar de um detetive questionador, inconformado e que vive em estado de atenção.
Essa é a nossa função, observar fatos, desmentir versões, analisar dados, apontar o panorama mais próximo da verdade, seja ela qual for, para que a justiça da lei se apresente possível.
Na academia de polícia você aprende a admirar a atividade investigativa como condição de justiça para punir o culpado e não incomodar o inocente.
Na academia de polícia são apresentados os maiores “cases” de sucesso e você se anima.
Na academia de polícia grandes amizades e parcerias são construídas. E também inimizades, porque a polícia atrai todo tipo de gente maluca também.
Na academia de polícia tem treino de luta que é mais luta de verdade que treino.
Na academia de polícia tem muito disparo de arma de fogo para se lembrar dos filmes de ação que lhe fizeram decidir pela carreira policial.
Na academia de polícia tem os parentes orgulhosos de você, eles escutarão com paciência seus discursos sobre calibres e seus poderes de parada.
Na academia de polícia tem a sensação de andar armado pela primeira vez e tirar seu primeiro plantão.
Na academia de polícia tem balada a noite no final de semana e a história impressionante vai ser “oi meu nome é X e eu sou policial civil”.
Na academia de polícia tem formatura com hino nacional todos os dias.
Na academia de polícia tem cansaço de dia, de noite e de sempre.
Na academia de polícia tem muitos namoros e casamentos extintos pois a vida policial exige ajustes e adaptações nem sempre suportadas.
Na academia tem um novo sangue nas veias e um novo cérebro pensante ajustado à nova realidade policial.
Na academia de polícia existe um destino incerto depois de seu término, uma comarca no fim do mundo ou uma delegacia especializada, talvez.
Na academia de polícia nasce o compromisso com o distintivo: sempre honrá-lo mesmo quando derrotado, frustrado, enganado e preterido.
Na academia de polícia já é possível identificar tem os bagunceiros, vadios e psicopatas, o melhor é ficar bem longe deles.
Na academia de polícia se aprende que carregar uma arma é mais ônus que bônus, é mais dever do que direito, é mais risco que segurança.
Na academia de polícia você assume que pode morrer na mão de um criminoso apenas pelo fato de ser um agente da lei.
Na academia de polícia tem corredores antigos com tijolos de cinquenta anos ou mais, que abrigam frações das histórias de muitos policiais, de muita vivência que deve ser respeitada, quando mal existiam computadores para confeccionar boletim de ocorrência.
Na academia você se depara com uma verdade: alguém atrás de uma porta tem mais chances de acabar com você do que você com ela, e não há muito o que fazer, por isso, todo cuidado ainda é pouco ao adentrar uma residência de suspeito.
Na academia de polícia você normaliza a tranquilidade do medo e da incerteza, do improvável e do repentino, porque esta será a sua nova vida.
Na academia de polícia você sabe que um dia a corregedoria vai olhar para a sua ficha funcional, e você não sabe se aquele policial estará em um dia bom ou não.
Na academia de polícia há esperança de que todo trabalho bem feito vai funcionar, mas é claro que os instrutores não vão te desanimar dizendo que em muitos casos, mesmo assim, tudo vai dar errado.
Na academia de polícia tem gente sem noção, sem saber onde foi parar e como agora pode sair.
Na academia de polícia a vida é corrida, doída, frenética, mas com muito orgulho e sensação de alegria pelo objetivo alcançado.
No final desses meses que parecem durar uma eternidade, vem a formatura, a família orgulhosa, uma nova armadura invisível e uma nova missão: exercer a profissão com o mesmo brilho nos olhos do dia em que você entrou pelos portões daquela escola da polícia.

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