O anão que quer ser delegado e o imaginário coletivo sobre a Polícia

A polêmica das últimas semanas é a do candidato ao concurso da Polícia Civil de Minas Gerais, cargo de delegado de polícia, que tem nanismo e foi reprovado na etapa de capacidade física.

Veja aqui: https://g1.globo.com/go/goias/noticia/2026/03/07/advogado-com-nanismo-diz-que-foi-discriminado-em-teste-de-aptidao-fisica-para-delegado-em-minas-gerais.ghtml

Matheus foi aprovado em TODOS os testes (corrida, flexão, etc) mas reprovado no salto horizontal, tendo-lhe sido negada a possibilidade de realizá-lo numa distância adaptada e compatível a sua deficiência.

Recorreu, e o caso foi parar no Supremo Tribunal Federal, o qual determinou a realização de novo exame, agora com as adaptações devidas.

O alvoroço se espalhou nas redes sociais, e gente de todo tipo, incrédula, argumentou que um anão não tem capacidade para ser um policial civil.

Como assim um anão delegado de polícia?

PORQUE É PRECISO ESTAR PREPARADO para o combate repentino, para um tiroteio a qualquer momento, para a luta corporal, para salvamento em águas rasas, em águas profundas, para dar cambalhota atirando, para carregar colega ferido, para pular muros altos, muros com arame farpado, para conter tumultos de investigados na delegacia, para impedir a fuga de presos, para carregar um fuzil que é mais comprido que sua estatura, para fugir em diligência carregando coletes com diversos penduricalhos, para impor medo e respeito em bandido, para não colocar em risco a integridade física da equipe…

Tal esquema de raciocínio, discriminatório e reducionista, integra o imaginário coletivo que se tem da polícia.

No Brasil, mal se sabe a diferença das polícias militar e civil. A ignorância é tão grande que o povo acredita ser “tudo” a mesma coisa, e polícia só existe quando está nas ruas para realizar o policiamento ostensivo, ou para prender alguém.

A visão da polícia é a de que ela existe somente quando sai às ruas em operação, entrando nas residências, ou em perseguição a bandidos, em alta velocidade, ostentando fardamento e armas longas, com muitas luzes e barulho.

A mídia repercute contextos de violência extrema (exceção) em estados como o Rio de Janeiro, e o povo é submerso na cultura da guerra ao crime, do estado policial, do alerta constante.

Nosso modelo de polícia, ancorado na militarização da segurança pública, desde a época colonial, segue vivo até os dias de hoje, reduzindo a polícia a um ente com caracteres belicosos defendido pela maioria.

Mas qual tipo de criminalidade estamos desejando combater? Porque para se combater crime cibernético, crimes de corrupção, fraudes bancárias, sequer é necessário uma arma de fogo.

A atividade investigativa, numa perspectiva filosófica, dispensa o uso de aparato bélico. A atividade investigativa é realizada a partir de cérebros pensantes treinados, cujos métodos e estratégias levarão ao deslinde do caso concreto, descobrindo as lacunas e provando materialidade, apontando autoria e circunstâncias do crime.

Eu nunca precisei saltar 1,65m durante os meus dias na polícia. Nunca precisei pular de prédio ou desviar de míssil, fixar corda no penhasco com fuzil na bandoleira. Existe um universo gigantesco dentro da instituição polícia civil, e com certeza em algum canto dele um delegado anão, com vontade de ser um bom policial, poderá se encaixar.

Também nunca vi delegado participar em todas operações. O delegado, diferente do imaginário popular, é um gestor. Deve ele organizar a rotina policial de uma delegacia, presidindo os procedimentos da melhor forma, definindo as linhas e estratégias investigativas.

É ele que extrai o melhor de sua equipe, alocando talentos em determinados setores, movimentando os recursos humanos de acordo com as especificidades daquela unidade.

Existem delegados em setores de inteligência, que nunca saíram para a rua. Existem delegados em setores de planejamento, criando protocolos e inovações a incrementarem a eficiência do desempenho da atividade.

Existem policiais que, por trás de uma mesa, olhando para a tela de um computador, calçando chinelo e uma camiseta suja de café, descobrem a localização de pessoas sequestradas e então uma equipe com 20 homens tipo SWAT invade o local para o resgate.

A atividade da polícia civil existe num contexto de equipe: uns mais fortes protegem os mais fracos, uns mais isso, uns mais aquilo, e no final todos se completam.

PORQUE também devemos deixar de estranhar o diferente, deixar de acreditar que o diferente é errado ou ruim.

PORQUE devemos incluir todos mesmo com suas deficiências, na medida em que é possível o desempenho de diversas atividades dentro da polícia civil, sob o manto da razoabilidade e proporcionalidade.

PORQUE mesmo numa equipe em que seja frequente o enfrentamento nas ruas, com diligências e operações, o mais forte protege o mais fraco, e a pluralidade de policiais, numa perspectiva de grupo, pode garantir sim a participação de um policial deficiente.

PORQUE se queremos mesmo levar ao pé da letra a capacidade física para o exercício da atividade policial, deveremos excluir – HOJE – da instituição os gordos, aqueles com problema na coluna, no joelho, e os idosos com baixa visão, os transtornados psicologicamente que não poderiam jamais estar portando uma arma de fogo, muito menos participando de operações policiais.

O imaginário popular tosco sobre a polícia nos reduz a um mero “soldado” fardado numa “guerra” violenta contra gente perigosa e sanguinária, mas o meu último investigado, que talvez seja condenado há mais de 9 anos de prisão (assim eu espero!), é um homem de 25 anos, branco, sem passagens policiais pretéritas, alfabetizado, dócil, educado, com uma conversa de gente de bem, casado, pai de uma menina de 7 anos, frequentador de igreja e bem falado na cidade.

Sou feliz por integrar uma instituição tão GRANDE e importante no sistema de justiça criminal, mas muito decepcionado com a pequenez de certas mentalidades discriminatórias e segregadoras.

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