Um cigarro e uma prisão

Você já assistiu a centenas de filmes e séries policiais.

Com certeza, já deve ter percebido que os policiais fumam cigarros, e fumam muito.

É comum vermos o detetive protagonista acendendo seu cigarro, enquanto analisa seus próximos passos, num ar misterioso que mescla perspicácia, sagacidade e genialidade.

Os personagens conversam com ele, mas ele está envolto nos próprios pensamentos sobre a trama criminosa enquanto traga a fumaça.

Na vida real, sabemos que essa porcaria destrói a saúde em pouco tempo, por isso eu sou um policial não fumante.

Entretanto, na vida real da polícia civil, muitos policiais ainda têm esse hábito, e tudo bem, cada um é cada um.

Quando estamos reunidos e algum policial acende seu cigarro, automaticamente eu me imagino dentro de um filme policial, porque a vida real pode ser cansativa e frustrante demais.

Quem disser que não entrou na polícia porque viu muitas cenas como essa é um baita mentiroso.

Então procuro um café para ser o meu cigarro naquele momento de reunião com conversas sobre nossos casos, problemas e desafios.

Numa dessas ocasiões é que aconteceu uma prisão divertida.

Foi assim: num determinado dia fomos prestar um apoio a uma delegacia de outra comarca. A missão era cumprir um mandado de busca e apreensão. Horário, bem cedo, local, uma residência rural localizada muito distante da cidade.

Fomos, deu tudo certo. Objetos apreendidos, papelada assinada. Finalizada a diligência, aproveitamos a proximidade e nos dirigimos para cumprir um mandado de prisão definitiva cujo alvo estaria residindo numa escola abandonada em área rural.

Era uma sentença penal condenatório por crime contra dignidade sexual de menor de idade.

Solicitamos apoio daquela equipe que auxiliamos. Eles foram conosco. Em duas equipes cada uma se dirigiu a um possível local: a equipe 1 foi até a escola desativada e a equipe 2 foi até outra residência que seria de parentes dele.

Eu estava na equipe 2. Chegando no local, ele não foi encontrado.

Retornamos para encontrar a equipe 1, e lá os policiais relataram que a mulher encontrada no local disse que o alvo não estaria ali fazia um tempo.

Só que tal relato precário gerou suspeitas, já que o meu levantamento era seguro de que o alvo estaria ali sim.

Perguntei se eles haviam vasculhado o interior da escola, eles responderam que não. Só olharam pela janela, e a mulher, que estava com suas filhas pequenas, não saiu para fora.

Ficou claro que ele estava escondido ali dentro, e a mulher o acobertava. Pensei “já era, o cara escapou de alguma forma, talvez pelos fundos, perdemos”.

De repente, um dos policiais começou a iniciar uma conversa com uma das filhas da mulher, uma menininha cuja idade não alcançava mais do que 8 anos.

Ele perguntou se ela sabia onde estava o papai, que nós só precisávamos entregar um papel para ele.

Após um pouco de insistência, a pequena disse “vocês não vão machucar o papai né, ele saiu para o mato quando vocês chegaram”. A mãe não sabia onde enfiar a cara, e eu queria enfiar as algemas nela.

Imediatamente nos dirigimos para a região de mata, localizada nos fundos da escola. Só que era uma região enorme, ele poderia estar em qualquer lugar escondido naquele capão.

Após quase 1 hora de buscas desistimos, ele poderia estar muito longe. O sol já castigava, o cansaço batia. Resolvemos abandonar a diligência, pois havia restado frustrada.

Todos os policiais subiram em direção às viaturas, num ar desanimado e caminhar lento.

Meu colega fumante parou e acendeu um cigarro, eu não poderia abandoná-lo. Por alguns minutos ficamos em silêncio, a cena de filmes e séries acontecia.

Ele concentrado no ato de fumar e pensar, e eu descansando o pulmão.

Subitamente, ouvimos um barulho vindo de dentro do mato. Estalou uma vez, estalou outra. Meu parceiro olhou para mim e eu para ele. Pensamos a mesma coisa.

Me posicionei devagar e ele ali permaneceu. Estalou mais uma vez, agora mais próximo.

Mais 15 segundos e os gritos começaram: “polícia, fica parado, ou vai tomar!”

Nisso, enxerguei o alvo dentro do mato há uns 30 metros de distância, e corri na sua direção. Passei por uma porção de cipós, uns troncos, quase cai mas o alvo logo deu de cara com o cano da minha Glock.

E foi assim que conseguimos prender esse alvo, por causa de um cigarro. Ele estava escondido bem ali, perto da escola, e acreditou que nós tínhamos ido embora.

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