Reflexões num sábado pós plantão

Preciso ser rápido, meu fone só tem 20% de bateria, e só consigo escrever ouvindo músicas que cavocam as emoções.

Não faço roteiro, nem planejamento, simplesmente sento e começo a escrever sobre a vida policial. Não estou preocupado se alguém vai ler, ou o que vão dizer.

Daqui a décadas, alguém, sei lá, pode ter a curiosidade de querer saber como as coisas eram de verdade, saca?

Você não fica imaginando como era a vida numa tarde do dia 03 de fevereiro de 1955, numa cidade do interior, ou numa grande capital?

Ou talvez como era a rotina de um policial dentro dos centros de atividade da ditadura militar de 1964? Quando PMs, Policiais Civis e Militares das Forças Armadas saiam de mãos dadas caçando subversivos pelas ruas.

Imagine você numa tarde ensolarada com mais outros agentes estatais, com carta branca para invadir qualquer lugar, capturando pessoas, levando para qualquer lugar, fazendo o que quisesse para extrair a verdade (a verdade por eles defendida).

Você lê artigos científicos, lê o jornal, vê o noticiário e fica se perguntando como pode acontecer toda essa merda no mundo real e como tudo funciona.

Você se pergunta como a polícia descobriu a verdade sobre aquele crime brutal. Mas qual verdade?

Você se pergunta por que a polícia de um um estado da federação resolveu não mais usar câmeras corporais em serviço.

Você se pergunta como pode, em pleno século XXI, um negro ser vítima de racismo dentro de uma delegacia ou uma detida ser estuprada dentro de uma cela .

Você se pergunta por que uma pessoa que mata às vezes fica presa por 20 anos e depois retorna à vida em sociedade, enquanto a vítima virou cinzas numa cova.

Você se pergunta por que os políticos não sentam e fazem a grande e necessária reforma nas leis penais, mas para aprovar benefícios e penduricalhos tudo sai na velocidade da luz.

Você se pergunta por que São Paulo é o estado mais rico da federação e paga um dos piores salários aos seus policiais.

Você se pergunta como pode o Brasil não proteger de verdade suas fronteiras, de onde adentram todo tipo de armas e drogas.

Você se pergunta por que um policial civil ficou maluco e matou seus colegas dentro da delegacia.

Você se pergunta por que criminosos ricos e políticos raramente vão para a cadeia, mesmo deixando rombos de bilhões em fraudes e esquemas de corrupção.

Aliás, você se pergunta por que a porcaria do crime de corrupção ainda não é hediondo, e sua pena mínima é de 2 anos.

Você se pergunta como vai trabalhar no dia seguinte sabendo que casos novos vão chegar ao seu conhecimento, mas sua mesa já tem tantos outros a exigir empenho total.

Você se pergunta por que o delegado geral foi nomeado pelo governador e agora, de repente, levou um chute na bunda.

Você se pergunta como pode gostar de trabalhar com as piores tragédias humanas, mas depois se lembra que a própria existência humana pode ser encarada como uma tragédia, já que ano a ano mais guerras e injustiças surgem, mais pessoas não possuem o mínimo existencial.

Você se pergunta se, no fim das contas, tudo não passa de uma cena teatral, com cada um fazendo seu papel pré-determinado cujo final é imutável.

Você se pergunta se um dia a polícia civil realmente será uma instituição séria e apta a amedrontar criminosos.

Você se pergunta por que respeita as leis e a Constituição mas prefeitos, governadores, presidentes e até ministros das cortes superiores não.

Eu poderia escrever minhas respostas para todas essas perguntas mas a bateria do fone acabou…

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