Ao caminhar pelas ruas das cidades é impossível observar todos os movimentos em curso.
Você pode olhar os carros, o caixa da lotérica, o sorvete saindo da máquina, os agendamentos de consulta, o motoboy, o vento balançando as árvores.
Você visualiza as reuniões, os contratos de negócios e os serviços prestados. Aparente normalidade.
Mas você não percebe as movimentações em curso, aquilo que está em andamento nos bastidores de uma possível catástrofe, os planejamentos criminosos, os eventos com seus significados mais íntimos nas emoções da consciência humana.
Uma foto das torres gêmeas num momento e tudo parecia tranquilo; um minuto após e elas estão desmoronando em chamas com pessoas se jogando das alturas.
O mundo se movimenta e a complexidade dessas engrenagens é indecifrável.
Talvez aquele motoboy esteja praticando um ato envolvido numa trama criminosa. Talvez aquele indivíduo caminhando tranquilamente pelas ruas da cidade está se dirigindo ao seu desafeto para matá-lo dentro em poucos instantes.
A função policial exige a compreensão de que a imprevisibilidade faz parte do cotidiano, e a aparente tranquilidade de um dia comum nunca existe, já que pessoas são vítimas de crimes todos os dias.
Frequentemente você será convidado a entrar instantaneamente num universo paralelo de pessoas, objetos, manipulações, perigos iminentes, riscos, decisões, circunstâncias.
Em um desses dias aparentemente tranquilos, fui sugado por um desses universos indecifráveis.
Era uma sexta-feira de um dia quente, eu usava camiseta de manga curta. Semana pesada, com muito trabalho, como sempre; fim de expediente, aquela sensação de fim de semana aterrisando, o piloto já informando as boas condições de clima e umidade do ar para desembarque.
De repente entra uma mulher na delegacia chorando desesperada. Ela dizia que seu ex-companheiro a estava perseguindo pela cidade, e acabara de sair de um supermercado praticamente em fuga.
Chegou ali ofegante, pedindo socorro, dizendo que o ex-companheiro já havia ameaçado matá-la. Imediatamente nos reunimos: eu, o delegado e o escrivão. Só havia aqueles 3 policiais na delegacia naquele momento, e mais alguns estagiários.
O telefone dela toca, é o autor. Pedimos para que ela colocasse no modo viva-voz: ele perguntava onde ela estava, e mais dizeres ameaçadores. Ouvimos tudo e constatamos situação de flagrante delito.
Nos equipamos com coletes, checagem de armamento e algemas. Íamos sair na captura daquele maldito perseguidor, uma nova sexta-feira acabara de se iniciar e não tinha hora para terminar.
Preparamos 2 viaturas, dividindo-nos entre elas, embarcando também a vítima para que indicasse as características do autor, e locais onde pudesse estar.
Quando vimos, o autor dirigia seu veículo e dobrou a esquina, visualizou o veículo da vítima estacionado em frente à delegacia, e também estacionou. Não era possível que ele faria aquilo.
Ele fez, desceu do veículo e veio em direção à delegacia, procurando por ela. Imediatamente, desembarcamos das viaturas e demos voz de abordagem, do jeito que vocês adoram ver em filmes. Mão na cabeça, tá preso filha da p…!
Mas o maldito não acatou nenhuma ordem, e quando visualizou a mulher do outro lado da rua, começou a gritar transtornado: olha o que você fez, para que isso, eu só quero conversar vão me prender por que se eu não fiz nada! O doido não se deixava algemar de jeito nenhum, e a putaria começou, empurra dali, segura aqui, vai para frente e para trás.
O cara possuia estatura alta, e pesava uns 90 kg, tinha um porte físico difícil de combater. Ainda mais transtornado daquele jeito, o grau de dificuldade se eleva ao quadrado.
Num dado momento, eu tento segurá-lo pela cintura, o delegado pelo braço. Ele gritava que não havia feito nada e não seria preso.
Ele consegue me empurrar com força e eu caio de bunda no chão. Alguma porcaria que estava pendurada no meu colete vai parar no meio da rua.
Naquele momento, a torcida do Flamengo já estava com a cara de fora das janelas assistindo tudo com pipoca e refri. Cinema de ação grátis e sem sair de casa. De relance eu vi os estagiários parados na frente da delegacia observando tudo, devia estar emocionante.
A vítima chorava desesperada, um verdadeiro caos.
Me levanto com uma vontade colossal de sacar minha arma e atirar no rabo dele, mas decido por não fazê-lo. Ele sai correndo e nós corremos atrás. Consigo alcançá-lo, o delegado vem atrás, e o escrivão ficou para trás.
Após uns 200 metros consigo agarrar ele pela cintura e derrubá-lo no chão, o delegado vem e deita o joelho em seu pescoço, e então efetuamos a algemação, finalizando a prisão em flagrante pelos crimes de ameaça, perseguição e resistência.
Chegamos todos na delegacia e a sensação era de ter corrido uma maratona. Suor, meu pulso doía. A camiseta do autor rasgada. O delegado respirava ofegante.
Essa situação toda poderia ter acabado com o autor morto, ou um de nós morto. O perigo é real. Conter um homem em fúria jamais será uma tarefa tranquila, ainda que haja treinamento e técnica aplicadas.
A superioridade numérica é essencial nesses casos, mas nem sempre é possível diante das limitações da instituição.
Pedir apoio naquele momento era medida ineficaz, não havia tempo, tínhamos que agir, e assim o fizemos, tomando decisões racionais, baseadas nos treinamentos e orientações.
Polícia Civil na vida real é assim, você vai rolar no chão com criminoso na tarde de uma sexta-feira aparentemente inofensiva. Às 16h eu tomava café e dava risada, às 20h meu pulso torcido doía. Olhei para o delegado e disse “cacete Dr. que sufoco”. Ele não respondeu pois não tinha fôlego.
Num dado momento, fui conversar com o preso na cela, e ele pedia desculpas, dizia que nunca faria mal a qualquer autoridade, que estava apenas alucinado pela situação. Ele dizia que não se lembrava do que tinha feito, pediu para se desculpar com o policial que havia derrubado no chão.
Eu dei risada e disse “fui eu que você derrubou seu animal, agradeça por estar vivo”. Ele pediu desculpas. Após a papelada toda eu o conduzi até o presídio, retornando para casa próximo da meia noite.
Algumas semanas depois do ocorrido fui ao supermercado. Cidade pequena.
Adivinha quem encontrei num dos corredores? O autor. Ele viu que eu havia visto ele. Veio na minha direção e me cumprimentou com um respeitoso “boa tarde Sr”. Eu respondi também e emendei: já saiu da cadeia, poucos dias hein.”
Ele contou que tudo havia se resolvido com a companheira (vítima) e que aquilo não passara de um episódio lamentável. Eu dei uma risada de desespero e segui meu caminho. Fiz o meu trabalho e é isso que importa.
Continuamos, sem saber quando será a próxima sexta-feira com muita emoção. Ou segunda-feira? Ou hoje mesmo?

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