Imagine uma atividade em que vidas são devassadas, pessoas se tornam alvo do Estado, são presas e indiciadas, têm seus dispositivos eletrônicos pessoais apreendidos, bens bloqueados.
Não há situação de maior risco a direitos e garantias fundamentais a exigir comprometimento e responsabilidade máxima.
Quando você é aprovado em um concurso público para ingresso na polícia civil, tem de saber que agirá diretamente nos rumos de muitas vidas, e erros podem custar caro.
A polícia judiciária, investigativa, engloba a atuação de agentes mais próximos ao fato delituoso. O juiz, promotor? São, muitas vezes, meros expectadores das provas já colhidas durante a investigação.
A par disso, infelizmente, dentro de delegacias é comum encontrarmos estagiários aos montes, trabalhando sem supervisão, exercendo, na prática, funções policiais, cartorárias, muitas delas com caráter decisório.
É comum delegacias possuírem mais estagiários do que policiais formados. Isto é só mais um absurdo no cotidiano da polícia civil real.
Traduz-se, em primeira análise, em precariedade dos atos produzidos, e em última, na burla à regra do concurso público.
A desorganização e ineficiência estatais abre brecha para que soluções como essa inferiorizem a instituição, que perde credibilidade e integridade.
Além disso, os estagiários também são “cedidos” por prefeituras, propiciando a formação de uma relação perigosa entre o órgão estadual e municipal.
Como investigar o governo municipal se a delegacia só funciona com a colaboração de estagiários cedidos pela prefeitura?
Vira um toma lá da cá, sem contar a possibilidade de vazamento de dados. Pensa que vai fazer aquela super investigação contra a prefeitura?
Se liga, vai tomar chibatada e nem vai saber de onde, vai ouvir mas não vai escutar.
A instituição Polícia Civil, como um todo, a partir da minha experiência, não se garante. Não mata no peito, só funciona recebendo verba de parlamentar, porque tem estagiários e outros funcionários cedidos, porque policiais se desdobram em dois ou três para cumprir suas tarefas.
Nós fazemos isso justamente porque somos comprometidos com a vida das pessoas. Uma vítima foi assaltada e tomou uma surra, e você vai trabalhar igual um f.d.p para tentar por na cadeia o criminoso.
Uma criança foi abusada por um marmanjo maldito, e você não dorme mais até entender aquela merda toda, como tudo aquilo aconteceu e quem é culpado, quem está mentindo ou não.
Um motorista atropela e mata uma pessoa de madrugada num local escuro, sem testemunhas ou imagens de câmeras, e você esquece até a data do seu aniversário tentando provar a verdade do fato que só existe naquele exato momento em que acontece.
Estagiários não podem decidir essas coisas, mas na prática eles estão enfiados em tudo, tapando buracos que o Estado deixa. Alguém pode dizer que um mero boletim de ocorrência não exige a atuação de um policial formado.
Digo que a investigação tem início exatamente no Boletim de Ocorrência, cuja confecção atenta e minuciosa pode encurtar muito o caminho até um desfecho satisfatório.
Acontece que o número tão reduzido de policiais força a tomarmos atitudes do tipo escolha o menos pior. O cidadão deveria ser recebido por um policial capacitado desde o início.
Registrar boletim de ocorrência é uma merda, pois de 10 metade são meras picuinhas de vizinhos, brigas do cotidiano e fatos não criminais, mas mesmo assim, para que haja uma filtragem adequada, sob à luz dos direitos e garantias fundamentais, bem como uma atenção maior a casos graves, com a consequente instrução detalhada do fato, é necessária a presença de um policial formado e comprometido.
Se houvesse mais policias, poderia se feito um rodízio para a confecção de registros de ocorrência, sem sobrecarregar ninguém. Tudo é possível se há quantidade suficiente de agentes estatais atuando.
Estagiários devem aprender, atuar acessoriamente, sem protagonismo. Contudo, se não há policiais para fazer o mínimo, imagine se haverá para, de fato, exercer tal mister. É uma lástima.
Existem estagiários muito bons, diga-se de passagem, mas a maioria é ruim e funciona como quebra-galho, e nem é culpa deles, como já explicado. Ruim com eles, pior sem eles. Corrigir erros sai mais caro e demorado, leva tempo dobrado.
Só para se ter uma ideia vai uma história: nós já tivemos que investigar e prender um estagiário da nossa delegacia. Sim, ele vivia solto e fazia de tudo, tinha senhas e acesso livre.
No fundo, era um criminoso. Vendia bens apreendidos, utilizava o sistema para fins particulares, se apropriava de valores afiançados e consumia a droga apreendida, era um viciado.
Ninguém percebeu durante um bom tempo (mais de 1 ano) pois todos estavam atolados de serviço e ele desenrolava o que lhe pediam. Talvez até repassasse informações sigilosas de procedimentos, mas isso nunca descobrimos.
Um dia o estagiário está na festinha de aniversário de policial na delegacia, no outro está algemado e preso pela própria equipe, dá para acreditar nisso?
Tudo isso só aconteceu porque não havia a tal supervisão sobre as atividades dele. E depois a merda estava feita. Pior ainda, essa palhaçada toda gerou um trabalho do tamanho das malditas montanhas do Everest: identificar tudo que ele fez, relatar, e esperar a corregedoria lançar os mísseis.
Quer mais histórias? Agora uma mais de leve: um dia estava prevista a entrega de 6 computadores para a delegacia. O estagiário, homem da frente da delegacia toda, recebeu os pacotes da transportadora e não conferiu que estava faltando um.
A transportadora foi embora com o papel de recebido com carimbo. Pronto, ferrou, nós tínhamos 5 computadores e confirmamos que recebemos os 6. A responsabilidade é do policial, onde ele estava?
Depois de umas horas, quando tomei conhecimento da situação, imediatamente liguei para a empresa que ficava do outro lado do planeta, me atendendo a merda de um robô.
Depois de explicar tudo, eles disseram que iam ligar para a transportadora verificar.
A transportadora respondeu que conforme o documento de recebimento todas as máquinas tinham sido entregues, que não havia erro algum. Nesse momento seu coração já começa a disparar, pois agora você é suspeito de causar dano ao erário público.
Eu iria ter que provar que, de fato, só foram entregues 5 máquinas e não seis.
Eu já imaginava meu depoimento na corregedoria: “Sra. Delegada corregedora foi o estagiário quem não conferiu, eu não tive culpa” “E onde estava o supervisor do estagiário que não praticou o ato final de conferência?” “Sra. Delegada corregedora eu estava fazendo diligências na rua pois o prazo final do IP xxx venceria naquele dia”; “Foda-se você está condenado a ressarcir o dano ao Estado e ainda será suspenso das funções por 15 dias, e receberá anotação negativa na ficha funcional.”
Na polícia civil real é assim que funciona.
No fundo, a maioria dos estagiários não tem o comprometimento exigido para aquelas atividades.
O final da história é que depois de várias horas, quando a porcaria do caminhão da transportadora já estava há centenas de quilômetros de distância, encontraram o último pacote contendo a sexta máquina. Na outra semana eles vieram e o entregaram, me permitindo dormir em paz novamente.
E a história do estagiário que postou foto de presos na delegacia? Um dia a Polícia Militar trouxe 4 conduzidos pela prática de tráfico de drogas. As imagens deles foram para o instagram do estagiário empolgado, que depois foram parar no grupo de conversas de criminosos faccionados.
A merda foi gigante, e os criminosos, indignados, buscaram até advogado para ferrar com quem tinha divulgado a imagem deles. A veiculação de fotos de presos em redes sociais é vedada, e pode gerar responsabilização por ato de abuso de autoridade. Olha a cagada.
E a história da estagiária que foi abordada e no veículo um dos ocupantes portava uma pistola 9mm?
E a história do estagiário que na hora de confeccionar o BO registrou uma foto de corpo inteiro da vítima que estava de vestido?
E a história do estagiário que de saco cheio manda a mulher registrar medida protetiva no fórum, gerando pedido de explicações a autoridade policial?
E a história da estagiária que instaurou um Termo Circunstanciado em caso de roubo, que exige Inquérito Policial?
Muitos erros praticados por estagiários também são passíveis de serem praticados por policiais, muitos comportamentos inadequados provém de pessoas e não de cargos. Mas isso pode ser reduzido com melhor estruturação e investimento nas equipes.
Muitos policiais sim, exercendo todas as funções de forma permanente e integral. Estagiários, sim, mas de forma RESIDUAL, acessória. Todo policial civil tem uma boa história para contar sobre estagiários, ruim com eles, pior sem, e seguimos.

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