Dentro de uma delegacia você vivencia as situações mais inusitadas possíveis.
Se te contam você duvida, diz que só acredita vendo e quando vê, não acredita.
Esta é uma delas.
Em um dia qualquer de expediente, no período da tarde, se inicia uma movimentação de viaturas da Polícia Militar em frente à delegacia. Muito possivelmente alguém está detido pela guarnição, e era isso mesmo. Também encosta um guincho trazendo um veículo com o pneu furado e um dos vidros quebrados.
Foi trazido para dentro da delegacia algemado um indivíduo japonês, alto, magro, de cabelos compridos até a altura dos ombros. Ele parecia meio suado, assustado e com aparência de quem não tomava banho há uns dois dias pelo menos.
Ele não falava uma palavra sequer, também não sentava na cadeira e não olhava diretamente para o rosto de ninguém.
A história contada pelos policiais militares era a de que este indivíduo foi perseguido pois dirigia em alta velocidade. Ele partiu do estado de São Paulo, atravessando o Paraná, e foi detido após quase mil quilômetros.
Durante o trajeto, passou sem pagar por pedágios e colocou em risco outros motoristas e pedestres.
Quando recebeu ordem de parada, passou a jogar o carro contra a viatura. Os policiais reagiram, disparando contra o pneu. Mesmo assim ele só parou quando não era mais possível seguir. Parado, não abriu a porta, obrigando os policiais a quebrarem o vidro e o retirarem à força para realizar a prisão.
Ninguém estava entendo porcaria nenhuma. Por que ele havia feito tudo aquilo, dirigindo feito um maluco? Pelo jeito, aquele japonês com cara de mafioso não tinha medo de levar um tiro no meio da bunda.
Como é seu nome? Da onde você veio? Por que você não acatou a ordem de parada dos policiais? Você está fugindo de alguém? Você usou droga? Responde cacete!
A resposta: silêncio total. Nós já estávamos perdendo a paciência. Foi quando encontramos um número de telefone nos pertences do japa. Consegui entrar em contato com um indivíduo, que seria um amigo da família.
O japa é ESQUIZOFRÊNICO, ele explicou. Surtou, pegou o carro, saiu de sua casa em São Paulo dirigindo até ser preso. Depois consegui contato com o pai do japa, que me contou um pouco da sua história.
O cara se formou em Engenharia Aeronáutica no IME (Instituto Militar de Engenharia do Exército Brasileiro), morou na Alemanha trabalhando por lá, depois retornou ao Brasil e cursou medicina. Ele exercia a função de médico numa unidade básica de saúde. Dá para acreditar? O cara era um verdadeiro gênio da porra, engenheiro e médico?
E eu achando que o japonês era um assassino drogado.
O pai ainda contou que ele havia ficado muito fragilizado com a morte recente da mãe, o que estava ocasionando surtos mais frequentes pelo não uso correto da medicação, preocupando a família toda.
A situação era complicada porque não havia nenhum parente que pudesse vir rápido até a delegacia auxiliar. O japa continua em silêncio absoluto, mas agora sabia que ele não tinha culpa daquele comportamento, era doente.
Mesmo assim, restava o problema pelo crime que ele havia praticado: dano ao patrimônio público, pois a viatura foi danificada. Passei a tentar me aproximar dele de um jeito diferente. Retirei ele da presença dos outros policiais, pois aquele movimento todo o deixava nervoso.
Aos poucos ele tomou água, sentou. Começou a responder sim e não movimentando a cabeça. Ainda sim ele não falava uma mísera palavra. Nunca escutei o som da sua voz.
Em conversa com sua família, o próprio pai recomendou que ele ficasse preso, pois não havia como eles se deslocarem em tempo hábil para o resgatar, e o medicar adequadamente. Liberar ele significaria colocar em liberdade um sujeito em surto psicótico, sem qualquer assistência, sem qualquer hospedagem.
E aí os dilemas surgem. Problemas que nenhuma porcaria de livro te dá a resposta, pois a vida real é mil vezes mais complexa e desafiadora. Você é obrigado a decidir, tomar atitudes rápidas, resolver o problema.
Decidimos que iríamos lavrar o auto de prisão em flagrante, transferindo a decisão pelo reconhecimento da inimputabilidade ao juiz. Ele ficaria preso aquela noite, sob tutela estatal, receberia atendimento médico no presídio, com a consequente liberação na custódia pois não tinha qualquer passagem policial.
Enquanto isso seu pai já havia preparado a viagem para buscá-lo.
E eu consegui me comunicar com o japa, por escrito. É isso mesmo, o único jeito foi abrir o word no computador. Ele escrevia e eu escrevia, sentados lado à lado em frente ao monitor. Situação hilária e bizarra para cacete.
Como é de costume aos esquizofrênicos, ele dizia que estava sendo perseguido e não queria que sua família fosse avisada, pois estavam “envolvidos”. Ele dizia precisar chegar em Foz do Iguaçu/PR.
Falava que precisava de outro veículo para continuar fugindo, pediu minha ajuda. Eu dizia que ele não podia fazer o que tinha feito, que o delegado iria mandá-lo passar uma noite na cadeia.
Entramos num acordo que no dia seguinte ele poderia pegar suas coisas e ir embora. Ele aceitou. Fizemos seu interrogatório: o delegado fazia as perguntas, eu transcrevia pelo celular, mostrava a ele, ele respondia digitando no celular, e eu mostrava para o delegado, com a câmera gravando tudo.
Até hoje eu não acredito nisso!
Ele não assinou papel nenhum. Ao fim o conduzimos para o presídio. No dia seguinte recebemos seu pai na delegacia, um senhor muito gentil educado. Família rica. Ele nos agradeceu imensamente pela atenção e respeito pelo tratamento no decorrer de toda a ocorrência.
Outro dia conversei com o policial penal que o recebeu no presídio. Ele disse que o japa não falou uma palavra sequer, não assinou nada e passou a noite em pé na cela. Coitado.
Fiquei pensando o que poderia ter acontecido se ele não fosse detido, ou que poderia ter morrido com um disparo. Poderia ter se acidentado, matando alguém. Por isso é tão importante identificar a situação de risco.
Você não conhece a história da pessoa, se é doente ou não, se está sob uso de remédios, entorpecentes, drogas. Toda cautela é necessária, cada situação é única e você aprende com todas elas. Tudo é experiência e aprendizado.
Num dia tranquilo de um expediente normal, tudo pode acontecer, esteja preparado.


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