Eu acredito em Durkheim mas…

2026 chegou, estou de volta, até quando não sei.

2025, do meio do ano até seu fim, foi um verdadeiro CAOS. Mas eu sobrevivi. Foi o ano mais desafiador da carreira: casos complexos, homicídios, estupros, roubos, extorsão, maus-tratos, drogas, muitas drogas, violência doméstica, mais violência doméstica, cachorro espancado para morrer, criança enforcada.

Numa delegacia de comarca clínica geral, reparta a sua cabeça como faz como uma pizza e tente dar o melhor em cada caso com cada matéria, mesmo sem uma DEIC para te socorrer. Você é a DEIC, ANTISEQUESTRO, DELEGACIA DE TURISTAS, FURTOS E ROUBOS, ESTELIONATOS E A DELEGACIA DOS CACHORROS, TAMBÉM A ANTIDROGAS E DE CIBERNÉTICOS. FALTOU A DELEGACIA DO AGRONEGÓCIO, porque também somos segurança de fazendeiro às vezes.

Agora, quero falar do Durkheim e da sua Teoria da Anomia. Essa linha teórica dentro do estudo da criminologia afirma que o delito surge, dentre tantas variáveis, do enfraquecimento dos laços sociais, do distanciamento gerado pelo desenvolvimento rápido da sociedade, e muitas vezes desequilibrado.

Ele afirmou, ademais, que nesse contexto, o crime pode ser encarado como um fato social normal, natural. Isto é, o crime não seria inerentemente um desastre, mas sim um indicativo de que algo precisa ser readequado. A partir desse apontamento, a sociedade poderá evoluir corrigindo e alterando seu comportamento.

Pode-se admitir, outrossim, um certo nível saudável de criminalidade , pois ele jamais deixará de existir por completo.

Tenho grande apreço por essa linha de raciocínio, acredito que tudo isso seja uma grande verdade mesmo.

Só que a sociedade parece piorar cada ano. Ninguém quer corrigir nada. O caos parece dominar mais e mais.

O desrespeito à lei vem se tornando algo natural. É bizarro. E dentro disso tudo, é claro, as infrações penais. Com uma boa dose de atenção, é possível enxergar pequenos delitos por todos os lados, já os grandes passam todo dia no jornal.

Apresentar atestado médico falso para faltar ao trabalho, adquirir obra pirata, violando direito autoral, trazer canetas emagrecedoras do estrangeiro ilegalmente, exercer profissão regulamentada sem autorização, assinar chamada na faculdade para o colega, sonegação de imposto, descartar lixo no meio ambiente gerando poluição, perturbação do sossego, esbulho possessório, farrear com dinheiro público, combinar licitação, golpe no aposentado, golpe na criança e no deficiente, comprar banco, quebrar o banco, fraudar o banco, fraudar empréstimo.

A gama é infinita.

Quando você é policial, vê delito todo dia e toda hora, ilícitos de A a Z, 7×7 dias da semana e pensa? Falta cadeia para tanto f.d.p. Eu posso enfiar a minha arma na cara desses malditos também? Cadeia para favelado nunca falta. Pequenos delitos e grandes delitos, todos são delitos, todos são criminosos.

O que dizer do momento global em que vivemos? Chefes de estado pouco se lixando para qualquer tipo de lei ou acordo. Este é o exemplo para a sociedade. Se um Presidente se acha na razão de realizar uma operação policial-militar em outro país para capturar seu presidente e o fichá-lo numa cadeia por tráfico de drogas, sem apresentar sequer uma porcaria de prova, assassinando diversas pessoas, bombardeando e destruindo seu território, eu já não sei de mais nada.

Fui ensinado que para cumprir um mandado de prisão ele deve ser válido, expedido por autoridade judiciária, e respeitar algumas regrinhas, como por exemplo não matar ninguém que não tem nada a ver com o alvo, e não destruir sua casa. Utilizar algemas, então, só em caso de real necessidade. Tem uma lei também que impede que o preso seja objeto de espetacularização midiática.

Tem maluco para todos os gostos e todas as sanhas. Do outro lado do planeta uma guerra por ego se arrasta há 4 anos. Espionagem, emboscadas, violação de privacidade (atividade de espionagem), assassinatos. De repente você está no shopping e um drone explode tudo acima da sua cabeça.

Para que as pessoas vão respeitar alguma coisa? As pessoas não querem respeitar mais nada, e as instituições policiais cuja função é apurar crimes (de forma legal) estão fora de moda. Existe uma polícia de fachada, para prender os de sempre, e uma polícia de faz de conta, que nunca servirá como a mola propulsora da mudança social da qual Durkheim teorizou.

A polícia para apurar o mesmo de sempre e prender os repetidos é cada vez mais aplaudida e enaltecida pela violência que ultrapassa a legalidade. Legítima defesa agora é que nós dissermos que é.

Nem o Estado respeita mais a lei. Os cidadãos também não irão respeitar.

Entrei na polícia acreditando que a punição justa altera a sociedade, faz com que os outros enxerguem o dano e o evitem. Acredito no Durkheim mas…

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