Tem dias que vc jamais esquece na vida policial. Este foi um deles.
Na minha cabeça, essas coisas de policial ser demitido, expulso, só aconteciam em filmes ou no jornal da TV, mas não.
Naquele dia em específico me encontrava em outro município, aguardando a manutenção de viatura em concessionária. Convocado para uma reunião às pressas, recebi a incumbência do delegado: recolher arma, distintivo, funcional e demais pertences de um colega, imediatamente, após lacrar tudo e custodiar até segunda ordem.
Depois de um longo processo, a demissão dele havia sido publicada no diário oficial, não havia mais o que fazer.
Enquanto dirigia de volta à comarca, só conseguia pensar: que grande merda, que situação, como vou fazer isso? Isso não é coisa de delegado fazer, por que eu? Quais palavras dizer a um policial que acabara de ser expulso da instituição, após mais de 15 anos de serviço? como ficará sua esposa, seus filhos? e o medo de um tiroteio, atentado contra a própria vida?
“Olha, meu nome é Delegado Fudêncio, sua demissão foi publicada, estou aqui para recolher sua arma, distintivo, funcional, algema, colete, chaveiro, camiseta, lanterna, meias e qualquer outras porcarias que a polícia te deu”. Devia ser assim.
Mas o caso era de cumprir aquela ordem, sem questionar, então assim o fiz.
Após ser comunicado, o policial compareceu na delegacia. Sem muita reação, em silêncio, ele foi colocando sobre a mesa aquilo que a gente luta muito para conquistar.
Já esperava aquele momento, dava para ver. O luto já estava em processo, só havia de torcer para o tempo amenizar a situação. Eu e outro colega fomos conferindo tudo, após o que confeccionamos um termo de entrega.
Quando a missão finalizou, fomos para a garagem da delegacia, área da conversa, da pós-operação, do café, etc. Ali disse que sentia muito e lhe dei um abraço. Qualquer que seja o motivo daquele desligamento, ali existe um ser humano que ficara desempregado, com família.
Quando você é policial, aquilo é sua vida. Fiquei por dias pensando o que ele iria fazer agora?
Quando você entra na polícia, logo ouve histórias sobre policiais que andam errado, fazendo bagunça e desafiando a própria sorte (e a corregedoria).
Corrupção na polícia? Existe, em variados graus e tipos. O Brasil é muito grande e as realidades dos estados são muito específicas.
A regra é que os novatos fazem merda pela euforia, são emocionados: carteirada em festa, brigas, tiro pra cima, abordagem de folga, etc. Vai se aprendendo que é necessário dosar a empolgação, amadurecer na carreira, tem muita coisa em jogo.
Tem polícia que logo você vê: é uma bomba relógio – vai explodir – e se você estiver nas redondezas vai sair ferido também, então tem que ficar ligado.
O fato é que se existe corregedoria, eles precisam trabalhar, então não dá pra dar sorte pro azar, uma hora dá m…Afora tudo isso, o que se planta um dia se colhe, e os desafetos, se puderem, vão dar aquele empurrãonzinho para que você caia do penhasco.
A polícia de hoje não é mais como a de antes. Se não andar na linha, coloca a carreira em risco. Como dizia meu avô, malandro mesmo é quem segue as regras e cumpre seus deveres, coloca a cabeça no travesseiro e dorme tranquilo.
Ninguém deve entrar na polícia pra pagar de herói, mas também não se deixe virar vilão. É necessária constante reflexão de quem você quer ser dentro da polícia, de como quer ser visto, e seus objetivos.

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