Tá dito e posso provar.
Dentre todas as instituições integrantes do sistema de segurança pública previstas em nosso ordenamento jurídico (art. 144 da Constituição Federal), a Polícia Civil e a Polícia Federal são as que possuem maior carga de trabalho.
Isto gera um custo altíssimo a nível de saúde dos policiais.
Decorre da nossa missão precípua: apurar infrações penais.
Fazer investigação significa buscar a autoria delitiva de um crime praticado e não alcançado pelo Estado através da via flagrancial.
Significa dizer: a Polícia Militar dos Estados, ou a Guarda Municipal, bem como a Polícia Rodoviária Federal estão nas ruas, rodovias, realizando ostensivamente a prevenção criminal, capturando uma ínfima parcela de autores em estado flagrancial.
Via de consequência, todos os demais casos necessitam da atividade da Polícia Judiciária a fim de esclarecer o delito.
Dito isso, também é verdade que a função investigativa moderna, à luz da sistemática constitucional, deve ser baseada em método científico. É tarefa complexa, custosa, a exigir empenho e dedicação dos envolvidos.
Investigação é coisa séria, mas não é assim considerada pelo Estado.
As polícias investigativas, portanto, são as que possuem maior carga de trabalho. Inicia com a indigna desproporção entre o número de policiais civis e o de registros de ocorrência.
Você receberá um número de casos diários impossíveis de serem sequer analisados (mesmo numa comarca pequena com “pouco serviço”).
É preciso, então, realizar um filtro, cujo objetivo é identificar quais tem potencial de sucesso. Realizada esta tarefa preliminar passa-se a trabalhar num caso. O que não está escrito em lugar algum, é que um caso pode demandar todo esforço e atenção dos policiais.
Cada crime é único, detentor de especificidades que os diferenciam, a demandar, não raras vezes, diligências demoradas, dependentes de autorização judicial, etc.
Ou seja, além de realizar uma filtragem para focar em crimes potencialmente “resolvíveis”, o caso selecionado pode exigir prioridade, afastando a capacidade para analisar casos concomitantes, escancarando a velha problemática da falta de efetivo das Polícias Civis dos Estados.
Cada ser humano possui uma capacidade cognitiva, você não consegue ler um livro A com o olho esquerdo e um livro B com o olho direito. Você não consegue ter 2 pensamentos ao mesmo tempo.
Você não conseguirá – mesmo querendo – investigar muitos casos ao mesmo tempo, seu cérebro vai pifar, acredite. Há muitos cérebros pifados na Polícia Civil, sem semelhante correspondência nas outras instituições.
Enquanto um policial militar finaliza seu turno de 24h e vai para o merecido descanso, o policial civil só tem sua lista de tarefas acumulada, dia após dia, pois as investigações se prolongam no tempo imprevisivelmente.
Além disso, as investigações passam a integrar o universo do policial, que as leva para dentro do lar, família, férias, almoços e por aí vai.
De repente, e você está no banho pensando nas próximas diligências, ou no prazo X, ou naquela exigência do Ministério Público.
De repente e você não consegue dormir pensando na vítima, ou no criminoso. Isso não acontece se você é policial militar ou guarda municipal.
De repente e você começa a sentir sempre cansado e com a cabeça cheia (cheia de informação).
O policial civil trabalha 24 por dia, seja na Delegacia ou na sua própria mente.
De repente e você está saindo da academia e se vê realizando uma diligência sobre um caso, porque você sabe que aquele fato não se repetirá e uma prova colhida é chance de trazer sucesso ao procedimento. Um elemento de informação pode finalizar um caso, simples (ou pode desdobrá-lo ainda mais).
Afora toda essa carga de trabalho, existem diversas tarefas administrativas, indispensáveis ao regular funcionamento de uma delegacia, a reclamar tempo dos policiais.
Tudo isso vai gerando um estado de perpétua sobrecarga e exaustão. Tem que se cuidar para não adoecer. Dizem que em algum momento da sua carreira como policial civil você vai adoecer, e é verdade.
Cada delegacia possui sua equipe (mais ou menos efetivo), com métodos de trabalho e especificidades em relação ao tipos de crimes apurados, variando o grau da problemática exposta, mas no geral é o pano de fundo da Polícia Civil.
Seria preciso quintuplicar o número de policiais em cada Delegacia para a situação começar a mudar.
Nós carregamos nossos inquéritos, nossas investigações, e o peso de esclarecer a verdade dos fatos mais bizarros que você pode imaginar.
Nós gostaríamos de ter mais colegas, mais recursos, mais credibilidade, mais amplitude e confiança.
Nós merecemos um salário muito melhor, para o quanto de nossas vidas “doamos” ao Estado.
O Estado ainda não enxerga a atividade investigativa como um medidor de dignidade humana e baliza democrática. É muito melhor investir nas polícias fardadas, para ganhar capital e visibilidade política – mas isso já é papo para outro texto.
Enquanto isso, nós vamos nos equilibrando entre o estado de caos e o limite da sanidade.
**Este texto não tem nenhuma intenção em diminuir ou menosprezar a importância ou complexidade das atribuições das outras polícias.

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